quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Tenda Vermelha - Introdução

Nossas heroínas são duas mulheres em diferentes etapas da vida e que trilharam diferentes Caminhos. Construíram suas vidas baseadas em suas crenças e heranças.

É nesse ponto que elas convergem numa afinidade profunda, elas pertencem à mesma linhagem de Ancestrais e são herdeiras de muitos talentos e mistérios.

Elas descendem das mulheres da Tenda Vermelha.

A Tenda Vermelha era o lugar onde as mulheres pré-árabes viviam os seus Ciclos Femininos.

Era o lugar para o qual as mulheres se retiravam do mundo exterior nos momentos de menarca (quando a Lua lhes estava no sangue), ali davam à luz os seus filhos, ali passavam pela menopausa.

No interior da Tenda Vermelha elas preparavam os remédios para a tribo, cuidavam umas das outras, partilhavam tratamentos essenciais e de beleza, histórias e experiências.

Ali discutiam sobre a educação dos filhos e as relações amorosas, vivendo em conjunto, rituais, alegrias, mágoas e preces.

Na Tenda cresciam, transformando-se, envelhecendo, experimentando o Sagrado Feminino.

A tenda era o local que as mulheres elegiam para a vivência da sua intimidade, num Círculo Feminino.

A Tenda Vermelha foi a guardiã da memória da vivência Tribal Feminina, e também do nomadismo, das tribos viajantes do Saara, dos povos ciganos em constante migração, transformando a Tenda em Caravana.

Elas Duas são herdeiras dessa Memória do Feminino das culturas do Médio Oriente, em toda a sua diversidade (Norte de África, Marrocos, Egito, Turquia), e das expressões que os povos ciganos trouxeram até à Europa (Bálcãs, Espanha, Leste da Europa).

Do folclore secular às danças tribais berberes, das camponesas do Egito ao giro de inspiração Sufi, da Turquia, das místicas danças de Espada aos Véus, e dos Véus aos Xales ciganos, às flores exultantes dos Bálcãs, e ao Flamenco – Árabe, da Dança clássica Oriental a fusões criativas de expressão contemporânea.

Elas Duas vivenciaram e ainda vivenciam a sempre cambiante experiência de ser Mulher, de ter o sangue no ritmo das Luas e marés, unindo em si mesmas todas as culturas numa dança feminina, cíclica e fértil como as estações.

Por Beth Miguez

Primeiro Capítulo - O Encontro

Era a época de preparar a Ilha da Fantasia para a famosa Temporada de Verão.

O trabalho fervia entre arquitetos, operários, artistas, paisagistas e glamurosos.


Elas ainda não se conheciam, quando foram convidadas para contribuírem com suas artes em espaços diferentes.

Uma dominava grandes áreas planas com texturas, pinturas especiais e decorativas.

A outra trabalhava sua criatividade nas três dimensões, tecendo materiais e técnicas diversas.

As Duas dedicavam-se às suas tarefas, cada uma se esmeravam para obter o melhor resultado.

Os espaços possuíam personalidades próprias, definidas pela intenção do uso.



A cultuadora de Deuses homenageou um Budha de Pedra com muitas flores, cristais e símbolos. Espelhos decorados captavam o sereno verde-mar transformando o pequeno deck num recanto de Paz e Meditação Zen.

Ao decidir que já estava concluído o trabalho, ela saiu caminhando pela ilha para conhecer os outros ambientes.

Deteve-se num agradável terraço que se debruçava sobre o mar, protegido por cortinas esvoaçantes e toldos brancos, tendo alvos sofás distribuídos preguiçosamente pelo espaço.


Passeou o olhar em cada detalhe até que se deteve na enorme parede azul que estava sendo coberta por libélulas e borboletas.

A adoradora de cores e flores foi atraída pela visão como a abelha é atraída pelo néctar.

Uma Fazedora de Asas Coloridas dava as últimas pinceladas. E não percebeu a visitante, que em silenciosa admiração observava os movimentos das suas mãos conduzindo pincéis como varinhas mágicas, fazendo aparecer multicoloridas borboletas e libélulas no azul.

E por uma fração de tempo o Caminho da Adoradora de Flores e Cores cruzou com o da Fazedora de Asas Coloridas.

Por Beth Miguez