quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Divina Quimera - Parte VI

Não demorou muito para terem respondidas suas perguntas. Uma Luz intensa surgiu nos eucaliptos e veio deslizando em direção a elas. O Fogo se intensificou, a brisa parou e o ar gelou pesado. Ela voltava com seu cão fantasma, Hécate materializada, na frente dela outra vez, e falou:


“O Portal do Leste se abriu, e por ele fugiu Malléficus, o Sátiro Narigudo. Criatura maligna que enfeitiça mulheres e ninfas, para torná-las escravas de seus desejos. Vocês terão a missão de ajudar Quimera, que também atravessará o Portal, a caçá-lo e mandar de volta ao reino da Hades.”


“Quimera chegará com forma etérea, energia pura. Precisará de ajuda para se manifestar nessa dimensão. Vocês criarão um corpo para ela, construirão um templo na entrada da cidade e lá a colocarão”. “Tudo deverá estar concluído até a Lua Cheia de Maio”

Quando elas se recobraram, já não havia Luz nem Deusa. Tudo era silêncio havia apenas a luz da fogueira que consumia o último pedaço de lenha já transformado em carvão. Como discípulas obedientes, as duas deram início a difícil missão de criar um corpo para uma deusa. Buscaram na rede, informações sobre o mito grego da quimera, descrito como uma feroz criatura, uma cabra com três cabeças e enormes asas, além de soltar fogo pelas ventas.

Foi assim que criaram o Delas Duas, um ateliê especializado em transformações. As duas artistas, adeptas ao Feminino Sagrado, criam beleza de matéria bruta. Expõem despudoradamente brilhos, cores e formas. Atraem olhares e corações ao colocar delicadeza e feminilidade em suas obras. Com coragem lapidam preconceitos e medos.

Assim nasceu a Divina Quimera, um só corpo habitado por três seres e com a doçura de uma Deusa. Quimera, lindamente exótica, ocupou seu pequeno Templo Grego na entrada da Cidade e assistiu ao primeiro nascer da Lua Cheia de Budha, no festival de Wesak.

Foi admirada, amada e polemizada. Não houve ninguém que tenha estado a sua frente e não tenha sido tocado por sua Magia. A seu lado um poema gravado na pedra dizia:


DIVINA QUIMERA

Sou Quimera, a Ninfa.
Nasci na Antiga Grécia, dos Deuses e Mitos.
Recebi o nome Lasgie e o dom da metamorfose.
Sou Quimera, a Mulher.
Fui enfeitiçada e aprisionada por Malléficus, o Sátiro Narigudo.
Sou Quimera, a Feiticeira.
Hécate, a Deusa Tríplice da Lua, lembrou-me quem eu era e o dom que eu possuía.
Sou Quimera, das Mil Faces.
Sob a forma de uma Cabra, escapei e subi montanhas.
Como uma Leoa, lutei por mim e venci os predadores.
Como uma Fêmea-Dragão voei livre no vento e cheguei aos céus.
Sou Quimera, a Deusa.
Como uma Deusa Mãe retornei do Olímpo, viajei no tempo
e atravessei o Portal do Sol Nascente, neste leste.
Sou Quimera, a Mensageira.
Fui enviada pelas Deusas Antigas à montanha dos Desejos Realizados
Para dizer que…
Sou Quimera, sou Você.
A Ninfa, a Mulher, a Feiticeira, a das Mil Faces, a Deusa.
Sou sua Força oculta.
Seu Poder de transformar a realidade.
Somos a Cabra que ultrapassa barreiras.
Somos a Leoa que luta e vence predadores.
Somos a Dracena que conquista a liberdade de ser e conhecer.
Somos a União de Poderes e Forças.
Olhe-me e reconheça-te.
Peça que te darei.
Sou Quimera, a Divina.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O Segundo Mistério - Parte V

A Lua Nova chegou sob descargas de Energias da Radiação Ultra-Violeta no Planeta. O Mundo, como o reconhecemos, se dilui na Luz. É preciso finalizar as decisões tomadas e se tornar no que deseja.

Nossas heroínas ainda não sabiam o que lhes aguardavam. A Adoradora de Cores e Flores já caminhava a Trilha das Deusas, mas a Fazedora de Asas Coloridas, apenas iniciava seu aprendizado.


As Duas se exercitavam numa manhã, caminhando e conversando pela estrada de terra batida, que serpenteiam entre o rio e a montanha levando à Bocaina dos Blaudts, rumo norte.


Quando ouviram um suave canto feminino. Estavam próximas à ponte do bambuzal, o silêncio emoldurava o canto acompanhado apenas do barulho das águas rolando sobre as pedras. Uma estranha quietude as envolvia, havia algo estranho no ar, elas podiam sentir.


Ao começarem atravessar a ponte de madeira, tiveram seus olhos atraídos pelo rio que deslizava feliz sob os delicados raios de um Sol de Outono.

Sem entender o que viam, tiveram seu olhar seguro pela visão de uma linda jovem nua, sentada numa pedra, no meio do rio, penteando longos cabelos e cantando.As duas ficaram ali paradas, olhando sem se darem conta do tempo.


Por fim a estranha jovem sorriu para elas e disse sem falar com os lábios e elas ouviram em seus pensamentos, que seriam visitadas por outras Deusas, que a Iniciação apenas começara. Dito isso, ela se volto para o leste e se foi num mergulho em águas que não as do rio. As duas ainda puderam ver as nadadeiras sumindo nas águas.

Não será preciso dizer a perplexidade das duas, que permaneceram estáticas no meio da ponte, perdidas em indagações.


O carro de Apolo atravessou o céu de São Pedro deixando um rastro de estrelas na noite escura.


Nenhuma das duas ousou comentar a experiência vivida. Falar traria para a realidade o que preferiam que fosse um sonho, talvez uma alucinação pelo esforço da caminhada puxada.



A noite estava linda e fria, a Via Láctea mostrava o Caminho Mágico da Lua Nova, levando o leste para oeste.



As duas, já esquecidas do evento da manhã, resolveram fazer uma pequena fogueira no jardim da Casa de Boneca. Sentaram-se em volta do Fogo Sagrado e brindaram com vinho (sangue da Terra) à dádiva de estar em lugar tão agradável de viver.


O pequeno jardim se avizinha com uma extensão de terra, que sobe um morro e termina num bosque de eucaliptos. A terra é semeada e plantada de acordo com as Estações, muitas bananeiras guardam a fronteira entre os visinhos.


De repente ouviram um barulho de passos quebrando galhos e amassando folhas. Elas se ergueram atentas ao intruso. Só puderam ver um vulto masculino, correndo entre as bananeiras e sumindo no mato. O silêncio retornou, mas a inquietação persistiu afinal o que é que elas tinham visto?


O vulto era humano, caminhava ereto, mas tinha patas e chifres na cabeça. Céus, o que estava acontecendo com as duas! Encontraram uma Mãe D’Água pela manhã e a noite, um Fauno corria pelo jardim. O que significava aquilo?

Por Beth Miguez

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Cabronça - Parte IV

Quem disse que bode não come onça? Esse é um dos mistérios que Hécate conduziu até Elas Duas.


Cabronça fruto do Amor bizarro de um bode por uma onça.


Unge, um bode suíço que emigrou para o Brasil, se apaixonou por Ya’wara, uma onça pintada, que vivia solitária na mata, em sua toca na curva do rio.


Desse amor nasceu Gigi, uma cabronça com pintas, olhos, bigodes, cauda e coragem de onça. Mas também com orelhas compridas, chifres, pernas, patas e obstinação de cabra.


Não satisfeita com sua aparência, decidiu fazer umas alterações e esfregou os chifres nas pedras do rio até diminuir o tamanho.

Pediu às formigas e abelhas para picarem sua cara até arredondar a expressão caprina.


Mas ainda não foi o suficiente, ela tinha planos ousados, queria a fama e despedindo-se dos pais, partiu para a cidade.

Ao chegar a São Pedro viu um cartaz que anunciava a Exposição Cabras da Serra e saiu indagando quem poderia prepará-la para participar também. Até que uma estranha anciã com os cabelos luminosos saindo por baixo do manto, disse para ela buscar ajuda no ateliê “Delas Duas”, pois as mãos das artistas haviam sido abençoadas pelas Deusas Antigas.

Assim ela fez, cabronça Gigi foi atrás "Delas Duas" pedindo para que a deixassem tão bonita como sua mãe e tão amorosa quanto seu pai.


Elas duas trabalharam duro, mas Gigi ficou radiante com o resultado.


A pele de veludo pintado brilhou, os chifres foram transformados em pequenas cornucópias de ouro, o rabo ergueu arrebitado, os olhos felinos brilharam enfeitados de cristais. E finalmente, uma fita de cetim dourado com imensos strasses, adornou o belo pescoço de Gigi.


Com uma extravagante beleza, a exótica criatura foi logo contratada para ser recepcionista no Restaurante Toca da Onça e participou do concurso da Cabra da Serra mais bonita.


Gigi, a única Cabronça do planeta, produzida por Delas Duas, na Terra Encantada.

Por Beth Miguez

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Terceira parte - A iniciação

Conta a lenda que é São Pedro quem escolhe seus adotados e que só depois de um Ritual de Passagem é que se pode se dizer um cidadão são pedrense.

Assim foi também com “Elas Duas”.

Fatos inusitados conduziram as duas por um Ritual de Iniciação.

Aconteceu na noite do Equinócio de Outono, o Ano Novo Astrológico, quando se alinharam às energias interiores masculinas e femininas com o fluxo do Espírito do Céu na Terra e no centro do coração.

Foi liberado tudo que não era Luz Divina e equilibrado as complementaridades masculinas e femininas na cocriação.

As Duas celebravam a data, com brindes à Grande Mãe, com os olhos dirigidos à Grande Pedra que oculta o nascente, quando um foco de luz foi se elevando por traz da mata, desenhando um Portal na rocha.

Paralisadas e mudas permaneceram as duas, enquanto pelo portal passavam seres vindos de outras dimensões.

Por fim, uma diáfana e longilínea figura, trazendo nas mãos uma correia de prata que segurava um enorme cão com três cabeças, materializou-se diante Delas Duas.

Uma visão aterradora pelas próprias circunstancias, mas ao mesmo tempo tranqüilizadora pela intensidade de Luz que clareava e tudo a sua volta.

Era Hécate, a Deusa tríplice da Lua.

Com aspecto não terrestre, ela é a Grande Feiticeira.

Deusa das Trevas, filha dos Titãs Perses e Asteria.

Hécate é a Deusa dos mistérios da noite.

Em noite de Lua Nova, ela caminha sobre a Terra com seu cão fantasma.

Conta-se que uma grande honra chega para aquela, cujas preces são recebidas favoravelmente por Hécate.

Não foram preciso palavras para que elas compreendessem que a Deusa as incumbia de uma tarefa muito especial, era a Iniciação "Delas Duas" nos Mistérios da Cidade Encantada...


Por Beth Miguez

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Tenda Vermelha - Segundo Capítulo

Em São Pedro

A Roda do Tempo girou muitas vezes e o destino tramou o inevitável. Em tempos diferentes e por motivos pessoais, cada uma saiu da beira-mar e subiu a montanha. Uma estrada rústica e serpenteada levou-as através do tempo, da pequenina ilha feita de tintas e ilusão para Cidade Encantada na Montanha dos Desejos Realizados.

A filha das Deusas Antigas chegou devagar, buscando a paz e seu lugar ideal. A sonhadora seguiu seu coração e enfrentou um desafio no retiro da cozinha de Buda. Às Deusas não importa o tempo que medimos, elas transitam livremente pelo presente, passado e futuro. Assim como podem nos transportar para o reino das Fadas onde um dia nosso é um ano para elas. Portanto, a história Delas Duas é uma viagem pelo tempo e pelo espaço.

Era uma noite quente de Lua Nova, Hécate a Deusa, puxou os cordões do destino “Delas Duas” e aconteceu o reencontro no Templo da Alegria. A adoradora das Deusas já havia encontrado seu Lugar Sagrado, no alto da colina, voltado para o Leste, de onde ela podia assistir tanto o nascer do Sol como reverenciar a Senhora da Lua.

Sua casa possuía pernas como a de Baba Yaga e ela cuidava para que a alma da casa estivesse sempre feliz para não querer partir.

A sonhadora encontrou depois de algum tempo sua linda casinha de boneca, voltada para o crepúsculo e o lar da Ursa. Ela também mimava a alma da casa com enfeites e delicadezas. As duas confessaram naquela noite, o quanto desejavam um espaço só seu, para fazerem suas artes.


Então a sonhadora inventou paredes invisíveis que sustentavam um teto que abrigava a artista e suas obras das intempéries, no jardim que rodeava a casa.

A adoradora escavou o morro sob a casa e descobriu que podia ter um céu azul sobre sua cabeça, em seu espaço subterrâneo. E assim construíram seus ateliês...

Por Beth Miguez

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Tenda Vermelha - Introdução

Nossas heroínas são duas mulheres em diferentes etapas da vida e que trilharam diferentes Caminhos. Construíram suas vidas baseadas em suas crenças e heranças.

É nesse ponto que elas convergem numa afinidade profunda, elas pertencem à mesma linhagem de Ancestrais e são herdeiras de muitos talentos e mistérios.

Elas descendem das mulheres da Tenda Vermelha.

A Tenda Vermelha era o lugar onde as mulheres pré-árabes viviam os seus Ciclos Femininos.

Era o lugar para o qual as mulheres se retiravam do mundo exterior nos momentos de menarca (quando a Lua lhes estava no sangue), ali davam à luz os seus filhos, ali passavam pela menopausa.

No interior da Tenda Vermelha elas preparavam os remédios para a tribo, cuidavam umas das outras, partilhavam tratamentos essenciais e de beleza, histórias e experiências.

Ali discutiam sobre a educação dos filhos e as relações amorosas, vivendo em conjunto, rituais, alegrias, mágoas e preces.

Na Tenda cresciam, transformando-se, envelhecendo, experimentando o Sagrado Feminino.

A tenda era o local que as mulheres elegiam para a vivência da sua intimidade, num Círculo Feminino.

A Tenda Vermelha foi a guardiã da memória da vivência Tribal Feminina, e também do nomadismo, das tribos viajantes do Saara, dos povos ciganos em constante migração, transformando a Tenda em Caravana.

Elas Duas são herdeiras dessa Memória do Feminino das culturas do Médio Oriente, em toda a sua diversidade (Norte de África, Marrocos, Egito, Turquia), e das expressões que os povos ciganos trouxeram até à Europa (Bálcãs, Espanha, Leste da Europa).

Do folclore secular às danças tribais berberes, das camponesas do Egito ao giro de inspiração Sufi, da Turquia, das místicas danças de Espada aos Véus, e dos Véus aos Xales ciganos, às flores exultantes dos Bálcãs, e ao Flamenco – Árabe, da Dança clássica Oriental a fusões criativas de expressão contemporânea.

Elas Duas vivenciaram e ainda vivenciam a sempre cambiante experiência de ser Mulher, de ter o sangue no ritmo das Luas e marés, unindo em si mesmas todas as culturas numa dança feminina, cíclica e fértil como as estações.

Por Beth Miguez

Primeiro Capítulo - O Encontro

Era a época de preparar a Ilha da Fantasia para a famosa Temporada de Verão.

O trabalho fervia entre arquitetos, operários, artistas, paisagistas e glamurosos.


Elas ainda não se conheciam, quando foram convidadas para contribuírem com suas artes em espaços diferentes.

Uma dominava grandes áreas planas com texturas, pinturas especiais e decorativas.

A outra trabalhava sua criatividade nas três dimensões, tecendo materiais e técnicas diversas.

As Duas dedicavam-se às suas tarefas, cada uma se esmeravam para obter o melhor resultado.

Os espaços possuíam personalidades próprias, definidas pela intenção do uso.



A cultuadora de Deuses homenageou um Budha de Pedra com muitas flores, cristais e símbolos. Espelhos decorados captavam o sereno verde-mar transformando o pequeno deck num recanto de Paz e Meditação Zen.

Ao decidir que já estava concluído o trabalho, ela saiu caminhando pela ilha para conhecer os outros ambientes.

Deteve-se num agradável terraço que se debruçava sobre o mar, protegido por cortinas esvoaçantes e toldos brancos, tendo alvos sofás distribuídos preguiçosamente pelo espaço.


Passeou o olhar em cada detalhe até que se deteve na enorme parede azul que estava sendo coberta por libélulas e borboletas.

A adoradora de cores e flores foi atraída pela visão como a abelha é atraída pelo néctar.

Uma Fazedora de Asas Coloridas dava as últimas pinceladas. E não percebeu a visitante, que em silenciosa admiração observava os movimentos das suas mãos conduzindo pincéis como varinhas mágicas, fazendo aparecer multicoloridas borboletas e libélulas no azul.

E por uma fração de tempo o Caminho da Adoradora de Flores e Cores cruzou com o da Fazedora de Asas Coloridas.

Por Beth Miguez

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Equinócio de Setembro

Equinócio é uma palavra que deriva do latim (aequinoctium), e significa “noite igual”, refere-se ao momento do ano em que a duração do dia é igual à da noite sobre toda a Terra.




Em linguagem Astronômica, os Equinócios são dois pontos de intersecção entre o Equador Celeste (projeção do equador da Terra sobre a esfera celeste) e a Eclíptica (trajetória aparente do Sol em torno da Terra).





Isto acontece no instante em que o Sol no seu movimento anual aparente pela Eclíptica, corta o Equador Celeste, apresentando declinação de 0º.


Por Beth Miguez

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Além do Olhar

...A cidade estava do jeitinho que a gente gosta, calma, dias lindos, noites estreladas, temperatura agradável e uma Brilhante Lua Minguante, que mais parecia uma jóia pendendo no colo de Hécate, a Deusa Lunar.

As ruas preguiçosas de São Pedro foram caminhadas pelos nativos, adotados e alguns poucos turistas,no ritmo ondulante do tempo de Kairós, onde os encontros e prosas são realmente mais importantes que o destino a ser alcançado.

Quando o Sol, numa espreguiçada gostosa, se pôs no oeste e o céu se coloriu azul profundo, salpicado de cristais cintilantes, os adoradores de Dionísio, deus grego do êxtase, das festas, do vinho, do lazer e do prazer, acorreram como numa procissão de Anthestéria à "passarela do vai e vem" e espalharam-se pelas ofertas de prazeres variados.

No espaço "África Livre", Lúcio, um Mani-Kongo, junto com sua Rosa Branca, receberam seus convivas com bebidas, petiscos, cantos e cantigas do “Pai Buruko” Nego Dé. A festa espalhou gente pela rua e pela madrugada.

O Templo da Alegria, mais uma vez, acolheu com o atendimento especial de Leila e com a gastronomia de Brás, o aniversariante do dia e sua enorme comitiva de amigos.

Rogério, mais um adotado por São Pedro, músico advogado e proprietário da Pousada Canto Nosso, comemorou mais um ciclo de vida no planeta, com direito a balões brancos, bolo e parabéns.

Música boa e brindes efusivos celebraram a noite até a Lua Anciã cruzar o Zênite de São Pedro e anunciar a proximidade de Aurora, a Deusa do alvorecer.

O domingo ensolarado proporcionou passeios e desfrutes na natureza, coroando o "finde semana" com a Tradicional Domingueira estrelada pelo nosso querido Jorginho.

O que mais podemos desejar da vida a não ser estar vivo em São Pedro da Serra.

Mas, a dicotomia se fez presente ao nos mostrar em nosso retorno, o lado sombra daqueles que apropriados do direito à terra e auto-intitulados descendentes dos "colonisadores" e pertencentes à famílias proprietárias das terras da região em que se encontra a maior concentração de Mata Atlântica e uma significativa biodiversidade.

Cruzávamos a rodovia RJ 142, chamada Eco- rodovia Serramar, quando um clarão vermelho iluminou a noite escura e de longe podíamos ver a crueldade praticada contra a vida existente na encosta da montanha.

Na altura do Km. 6, próximo a entrada de Vargem Alta, o fogo devorava toda a encosta, chamas ardentes lambiam árvores inteiras. O incêndio já tinha atingido o topo do morro e se espalhava pelo mato seco sem controle encoberto pela noite.

Um silêncio conspirador e mortal encobre e permite que queimadas criminosas aconteçam em nome do direito daqueles que cruzaram um mundo destruído e consumido por seus ancestrais, para dar continuidade à voraz necessidade de tomar, acumular, destruir.

Não foi apenas uma queimada que presenciamos ao longo da estrada, mais uma ação criminosa acontecia entre o Km 9 e 10.

Para onde irão os descendentes da União Famílias da Terra, quando não restar mais nada. Quando as práticas usadas contra o meio ambiente, acabar com a água, o ar e a fertilidade da terra, o que sustentará a vida de seus netos e bisnetos?
Beth Miguez

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Ilustração de Doré

“Os Contos da Mamãe Gansa” (1862)

Gustave Doré foi um dos maiores ilustradores de todos os tempos. Viveu no século XIX, de 1832 a 1883. Em 1862, ilustrou o pequeno livro chamado “Contes de Perrault”.
As gravuras descrevem de modo excepcional todo o espírito fantástico, absurdo, assustador e encantador dos contos de fada que até hoje intrigam, assusta e diverte as crianças e...
Os adultos que não desaprenderam a sonhar.
Começarei contando sobre uma Velha Senhora já conhecida de muitos, ou pelo menos de nome, ou melhor, pelo seu apelido...

Renomados narradores e ouvintes de histórias, os maiores pesquisadores de folclore e literatura, ainda não souberam dizer quem foi a Mamãe Gansa.

Possivelmente seja o nome de uma figura Arquetípica. Uma Velha Contadora de Histórias, também identificada com as Avós, com as Feiticeiras e com as “Fofoqueiras” da aldeia.

Nós a encontramos pela primeira vez em 1650, na obra La Muse Historique, de Loret, da qual constava a expressão: “Comme un conte de la Mère Oye”, ou seja, “Como um Conto da Mamãe Gansa”.

A frase foi usada na coletânea de Contos de Fadas publicada em 1697 por Charles Perrault.
A verdade, no entanto, é que os poemas da “Mamãe Gansa” foram compilados e perpetuados a partir das mais diversas fontes, algumas de raízes populares e anônimas, outras possivelmente autorais, mas todas, já assimiladas à cultura e ao imaginário coletivo.

Vale lembrar que os gansos, na Tradição Xamânica, estão associados à comunicação, à habilidade de expressão - especialmente através das narrativas - e à escrita criativa.
Assim, examinando essa figura que emerge da Tradição Popular no século XVII, podemos pensar que por trás dela, exista uma Tradição mais Antiga, que remonta aos primeiros homens, aos primeiros Clãs, às primeiras Famílias.

Desde remotos tempos, Mamãe Gansa já cantava seus versos; que ainda podem ser ouvidos, na gargalhada da Velha Bruxa, nas Cantigas das Avós e na Voz da Mãe que Embala.
Histórias que povoaram de maravilhas a nossa Infância.